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“Banco Mundial manipula fé alheia para sucatear nossas universidades federais” diz Lira Neto

O biógrafo e escritor comenta em artigo o capítulo do relatório do Banco Mundial ao governo brasileiro sobre educação


O biógrafo, pesquisador e escritor Lira Neto se debruçou sobre o relatório que o Banco Mundial apresentou há poucos dias ao governo brasileiro, mais precisamente sobre o capítulo destinado às nossas universidades. O resultado apareceu em um artigo neste domingo (11), no jornal Folha de S. Paulo.

Para Lira Neto, que abre o texto remetendo o leitor a Gabriel Garcia Márquez e o realismo mágico, “amparar supostas verdades com base em números e estatísticas, manobrando dados e fontes de informação, é truque de ilusionismo político. Em vez de artifício estético, trata-se de manipulação da fé alheia”.

Para o autor, no capítulo destinado a traçar o diagnóstico de nossas universidades, o Banco Mundial “tenta fazer a opinião pública acreditar que há paquidermes planando no céu. É o caso de lembrarmos que elefantes, obviamente, não voam”.
O relatório sustenta que “um estudante em universidade pública custa de duas a três vezes mais que um estudante em universidade privada: o custo médio anual por estudante em universidades privadas seria de até R$ 14,8 mil; em federais, 40,9 mil”
A comparação, de acordo com Lira Neto, “é escalafobética. Nas universidades públicas, ao contrário do que ocorre na maioria das instituições privadas, a vida acadêmica não se resume à sala de aula. Abrange o indissolúvel trinômio ensino, pesquisa e extensão, por meio de ações sistemáticas junto à comunidade. Daí a necessidade de investimentos sólidos em hospitais, clínicas, museus, teatros e laboratórios, entre outros equipamentos”.
Logo adiante, cita o físico Peter Schulz, que em artigo no “Jornal da Unicamp”, observou que “39% dos docentes da rede pública têm formação de doutorado, contra 22,5% da privada. Como dado extra, 85% dos professores das universidades públicas trabalham em regime de tempo integral. Nas privadas, 22,5%”.
O relatório do Banco Mundial diz ainda: “os professores universitários brasileiros ganham muito acima dos padrões internacionais”, dado negado pelo escritor de maneira espirituosa: “um gráfico contido no próprio documento desmente a pegadinha: mesmo o salário dos professores que atingem o topo da carreira, no Brasil, situa-se em nível bem inferior ao dos colegas estadunidenses, italianos, australianos e franceses, por exemplo”.
O pior, no entanto, ainda estava por vir. O Banco Mundial repete “uma lenda urbana que cerca a academia”: “Embora os estudantes de universidades federais não paguem por sua educação, mais de 65% deles pertencem aos 40% mais ricos da população”, diz o relatório.
No entanto, pesquisas do Fonaprace (Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis) e da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), de acordo com o escritor, apontam o contrário. “Apenas 10,6% dos alunos das universidades públicas vêm de famílias com renda superior a dez salários mínimos. Com a democratização introduzida pelo sistema de cotas, o índice de estudantes oriundos de famílias com renda abaixo de três salários, atualmente em 51,4%, só tende a crescer”.
Amparado no relatório, o Banco Mundial propôs ao governo dois caminhos: “limitar os gastos por aluno” e “introduzir tarifas escolares”. Em bom português, sucatear a universidade e cobrar mensalidades.
Lira Neto ressalta que “ao longo das 17 páginas do documento relativas ao tema, em nenhum momento os repasses para o setor educacional são definidos como ‘investimento’. Em contrapartida, a palavra ‘gasto’ aparece nada menos de 77 vezes”.
No final, ele lembra que é “impossível dissociar a leitura do relatório e a escalada autoritária que busca criminalizar a arte e a cultura, bem como espezinhar qualquer manifestação do pensamento complexo e do espírito crítico. Virtudes que encontram na universidade pública um de seus últimos territórios de excelência”.

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