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Crônica: A tragédia alimenta nossa vida!

A tragédia alimenta nossa vida!


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Há mais de uma década trabalho com projetos sociais, especialmente com crianças em situação de vulnerabilidade social. Nesse tempo tenho observado que, quase na totalidade, as ações que envolvem diretamente voluntariado e captação de recursos financeiros demanda grandes esforços e raramente têm a atenção de um expressivo número de pessoas interessadas em ajudar diretamente, seja dispondo de recursos financeiros ou ao menos doando seu tempo para contribuir com a divulgação dessas ações. 

Em resumo: é muito complexa a tarefa de encontrar pessoas dispostas ao envolvimento com as questões que geram proteção financeira ou de direitos aos grupos em condição de vulnerabilidade social ou econômica.

Não raro essas ações são confundidas com assistência a pessoas preguiçosas ou oportunistas e uma das frases mais repetidas com a intenção de justificar o não envolvimento é:  "Trabalhar ninguém quer, mas ajudar vagabundo, todo mundo quer". Quem responde a um pedido de socorro com essa ou qualquer outra frase pronta, desconhece profundamente a urgente necessidade de   melhorarmos o mundo a partir de pequenos esforços. Não é possível que o mundo seja um lugar melhor para viver se um número significativo de pessoas viverem em situação de vulnerabilidade econômica ou social.

Diante desse cenário surge, com uma força esmagadora, um grande paradoxo: o interesse generalizado pela tragédia em suas múltiplas faces; de maneira que até mesmo as práticas do mal estão, em nossa sociedade, banalizadas. Não raro, encontramos pessoas, com tempo de sobra para investir na divulgação de eventos trágicos, em especial, aqueles que envolvem cenas de violência... A vida sendo ameaçada ou mesmo terminando! 

A sensação é que a tragédia alimenta a vida; motiva as pessoas a entrarem em contato, a divulgarem, a formarem grupos a favor de uma banalização do mal e de suas práticas. Essa sensação, muitas vezes, se materializa em casos concretos de total desprezo à vida e a seu propósito de evolução para o bem. É necessário resistir, criar meios para enfrentar esse desejo contrário à vida. 

Durante esse tempo que trabalho com projetos para o terceiro setor (setor da sociedade que concentra as práticas para atenção aos grupos em vulnerabilidade) percebi que as práticas que norteiam a gestão desses projetos pode ser um caminho para resistirmos a banalidade do mal e a ideia da tragédia como alimento da vida.

Convido você para experimentar esse caminho, essa estratégia a favor da vida. É um convite e nunca funcionará se for imposto. É preciso aceitar e permitir essa experiência de atenção ao Outro, que na verdade é um dos meios mais eficientes de reconstruirmos a nós mesmos.


Jorge Lima é Filósofo e Analista Político. 

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