Real Cores

Um louco sem voto, mas com muito marketing



O destino de governos sem voto e apoio popular, como o de Temer, é cruel. Têm de buscar sobreviver obedecendo cegamente aos seus patrões e financiadores e fazendo jogadas demagógicas de marketing.

No caso de Temer, com um governo de cristal já rachado, a coisa se complica ainda mais porque ele tem de obedecer ao capital financeiro, que lá o colocou, e, ao mesmo tempo, servir a sua base fisiológica parlamentar, a turma da sangria, que lá o mantém. Não é fácil, convenhamos.

O capital financeiro, seu patrão, queria porque queria a Reforma da Previdência. Sem ela, dizem, o Brasil fale. Afinal, essa turma nababesca de velhinhos que ganha um salário mínimo suga muitos recursos que poderiam abonar nossos pobres rentistas e nossos frágeis bancos, cujos lucros, mesmo na pior crise da nossa história, batem recordes, demonstrando a "competência" da "turma da bufunfa". Muito justo.

Mas Temer, nosso bravo capitão-do-mato que não teme a rejeição do povo, mas tem pavor em desobedecer a quem realmente manda no país, não conseguiu cumprir com a doce tarefa de maltratar e punir aqueles que FHC definia como "vagabundos". A turma da sangria, sua base parlamentar, preocupada em amealhar, pela via democrática, os votos que roubaram na "caradura" da invenção das "pedaladas", não quer se autoimolar no altar da austeridade num ano eleitoral. Muito sábio.

Incapaz de cumprir com o ponto principal da agenda determinada por seus patrões, emparedado por sua base parlamentar e sempre acossado pelas investigações do judiciário, ao governo Temer só lhe resta o recurso pobre, desonesto e baixo das jogadas de marketing. Muito apropriado.

Primeiro, veio o marketing na área política. Agora, surge o marketing econômico.

O marketing político surgiu com a esdrúxula, autoritária e inútil intervenção federal no Rio de Janeiro. As próprias forças armadas, que detestam esse uso que fazem delas, sabem muito bem que essa medida não vai resolver absolutamente nada. Afinal, crime organizado se combate com ações de inteligência, coisa que está em falta no governo. Mas a ação é popular. Dá a impressão de que o governo está fazendo alguma coisa. O desfile de tropas e tanques apontando suas armas contra os favelados negros e pobres seduzirá, por algum tempo, a classe média conservadora, punitivista e neoudenista. O cândido eleitor de Bolsonaro se sentirá representado. Será algo como um gigantesco e caríssimo desfile de 7 de setembro, que inspira entusiasmo cívico, mas não produz quaisquer efeitos concretos. Ao contrário, como está demonstrado pela experiência do México, país onde as forças armadas estão envolvidas no combate ao narcotráfico há mais de 12 anos, esse envolvimento dos militares no combate à criminalidade só aumenta a violência e contamina as forças com os interesses dos traficantes. Muito estúpido.

Contudo, a intervenção, embora inútil para combater o crime organizado, produz efeitos políticos concretos. Ela tira da pauta do debate público as grandes questões nacionais, como a do óbvio fracasso econômico e social do golpe a da sua agenda de retrocessos, e coloca, com centralidade, a agenda conservadora da segurança pública com viés punitivista. Com viés de classe social. Está se tentando reforçar a ideia, sempre presente em nossas classes médias conservadoras, de que o Brasil tem um grande "inimigo interno": o pobre, o negro e todo esse pessoal que depende do Estado para sobreviver. Quer se criminalizar a pobreza e, com ela, todas as políticas destinadas a propiciar a inclusão social, econômica e política dos pobres.

Para se combater esse "inimigo interno", precisamos convocar as forças armadas, e para combater as políticas que beneficiam esse "inimigo indolente", que suga recursos dos impostos, precisamos implementar as políticas de austeridade que acabem com aposentadorias, pensões, benefícios, direitos trabalhistas e o Estado de Bem-Estar consagrado na Constituição de 1988. Essa é a agenda que o golpe tentará impor ao debate público até as eleições deste ano. A agenda da aversão ao pobre e às políticas sociais, responsabilizados pela criminalidade e pelos "gastos excessivos de um Estado agigantado". Tentarão ganhar as eleições com essa agenda recalcada. Muito ódio.

É claro que há também os aspectos geopolíticos, amplamente ignorados pela mídia golpista e imbecil. O envolvimento das forças armadas no combate à criminalidade é uma exigência do governo norte-americano, desde o início da década de 1990. Com isso, os EUA não apenas obtêm aliados em sua fracassada e beócia "guerra às drogas", mas também, e sobretudo, tornam as forças armadas brasileiras em forças subalternas, submetidas aos seus interesses geoestratégicos. Nesse sentido, Washington, um dos patrões ocultos do golpe (na realidade, nem tão oculto assim), obteve o que queria. As forças armadas deixam de cumprir sua missão principal de defender nossas fronteiras e a soberania nacional e se transformam em força policial secundária, submetida aos interesses geopolíticos de uma grande superpotência, como ocorre no México. Voltamos a ser quintal. Os "marines" já andaram até saracoteando na Amazônia, a convite de Temer. Muita subserviência.

Agora, o governo complementa esse marketing político com o marketing das 15 medidas, quase todas requentadas, em economia.

Todas elas, ou quase todas, visam compensar a perda da Reforma da Previdência com ações que beneficiam o grande capital. Entre elas, destacam-se a "autonomia" do Banco Central (leia-se a submissão definitiva da política monetária aos interesses do rentismo apátrida), a privatização (desnacionalização) da Eletrobrás e a doação de cerca de R$ 80 bilhões de recursos públicos às grandes empresas de telecomunicações. Um pacote generoso de bondades, que contrasta vivamente com o tratamento draconiano que o governo sem votos dedica aos detentores legítimos da soberania popular. Muita seletividade.

E, assim, vai se tocando a ópera-bufa do golpe. Com muita fanfarra, muito barulho, muitas trapalhadas, muitas mentiras e muitos enganos. Sem voto, sem rumo, mas com muito marketing.

Não se enganem, porém. O enredo dessa ópera–bufa não é giocoso. É trágico. Nunca retrocedemos tanto em tão pouco tempo. O Brasil está sendo destruído. Politicamente, socialmente e economicamente. De país respeitado, tornou-se um anão diplomático, sem soberania, sem pudor, que se vende por qualquer preço ao primeiro que fizer uma oferta. Pouca vergonha.

O que mais dói, nessa débâcle, é a ruína calculada da nossa jovem democracia. O golpe colocou o país no rumo perigoso de um crescente Estado de exceção. A intervenção militar no Rio, que politiza (sim!) as nossas forças armadas, pode ser o ensaio de uma democracia meramente formal, mas sem a substância da soberania popular. A depender do que aconteça, os verdadeiros donos do poder poderão tentar dar uma rasteira no voto, com o auxílio prestimoso da mídia venal e de castas burocráticas civis (judiciais) e militares. O impedimento de Lula pode ser só o começo de algo mais sórdido. Afinal, o golpe não veio para brincar. Há grandes interesses em jogo, principalmente interesses internacionais. Não vão largar o osso roubado. Não vão deixar que os pobres atrapalhem. Se conseguirem um candidato confiável e competitivo (está muito difícil), tudo bem. Senão, o inferno é o limite. Bastaria renovar a nossa notável tradição autoritária, com pinceladas de modernidade da "nova política" e das opções "técnicas". Muito cinismo.

Poderíamos continuar sem votos. Sem soberania popular e sem soberania nacional. Sem democracia. Sem Brasil. Sem futuro. Mas com muito marketing.

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