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Ação do Exército no Rio copia receita de tragédia mexicana


Numa cultura habituada a comparações e metáforas, é possível que tenha chegado a hora dos brasileiros trocarem de referência.

Se as décadas de 1980 e 1990 dos planos anti-inflacionários lançados em Buenos Aires e mais tarde reproduzidos em Brasília permitiu a aplicação de um slogan de uma marca de vodcka ("Eu sou você amanhã"), o momento atual é outro.

O desmonte do bem-estar social, da soberania nacional e o rebaixamento das Forças Armadas para missões de segurança interna como combate ao tráfico de drogas aproxima brasileiros e mexicanos como poucas vezes na história.

Hoje, a principal diferença de curso entre os dois países não é de foco nem de objetivo mas de ritmos e prazos.

Enquanto o México levou um quarto de século para consumar mudanças que transfiguraram o país, alterações de curso semelhante tem sido realizadas no Brasil de Michel Temer -- em menos de dois anos.

O caminho regressivo mexicano tomou vulto em 1994, depois que o país integrou-se ao NAFTA, o acordo de livre comércio com Estados Unidos e Canadá, que mais tarde incorporou o Chile.

Essa decisão trouxe consequências nefastas ao desenvolvimento do México. Para o setor industrial, implicou no fim de garantias para fábricas já instaladas no país -- e abriu maiores flexibilidades para se contornar exigências relativas ao conteúdo local, mudança que deu origem às chamadas maquiladoras. Para o riquíssimo setor mineral do país, no qual o petróleo é uma parte importante mas está longe de ser a única, implicou na criação de facilidades para a atuação das empresas norte-americanas. Na agricultura, apresentada na época como a grande vantagem comparativa para a economia mexicana, ocorreu uma tragédia, afirma Luiz Vásquez, professor aposentado da cadeira de História Mexicana na Universidade Autônoma do México, a mais importante do país, em entrevista ao 247.

"Ao liberar a importação do milho, o Nafta destruiu as pequenas propriedades familiares que garantiam sustento de milhões de agricultores, que tinham sua produção voltada ao mercado interno,"explica ele. "Uma parte dos camponeses foi forçada a imigrar como mão de obra barata para os Estados Unidos. A outra parte, especialmente os jovens, perdeu toda perspectiva de trabalho e integração social, tornando-se mão de obra das quadrilhas de traficante de drogas".

O efeito geral da nova situação é conhecido. O México se transformou no principal corredor para o comércio clandestino de drogas para seu mercado mais importante, os Estados Unidos. Inicialmente dedicados ao tráfico de maconha, as quadrilhas ganharam estatura industrial, produzindo boa parte das drogas sintéticas que se tornaram atrativos mais procurados -- e mais lucrativos.

Enquanto as polícias municipais e estaduais cumpriram um destino previsível, passando a fechar os olhos para o tráfico antes de disputar uma própria fatia nos negócios, as Forças Armadas mexicanas foram chamadas a intervir por Washington e com o passar do tempo acabaram sujando as mãos no processo.

Através de contratos bilionários para o fornecimento de armas modernas e equipamentos, garantiu-se que a luta contra as drogas se transformasse na prioridade número 1 do país. Mais tarde, através de uma mudança na Constituição, a própria função das Forças Armadas foi alterada. Antes responsáveis pela soberania, também se tornaram responsáveis pela segurança interna e, com o passar do tempo, acabaram contaminadas pelas mazelas que deveriam combater.

O resultado foi um previsível processo de corrosão do Estado, dominado por máfias que criminalizam a vida cotidiana, num pesadelo de sequestros, execuções e massacres. O saldo é trágico.

Em 2012, cinco anos depois de que o presidente Felipe Calderon anunciou a guerra ao narcotráfico, foram contabilizados 13 525 casos de pessoas "desaparecidas", eufemismo empregado para designar execuções que envolvem conflitos entre quadrilhas criminosas e também a brutalidade de fatias corrompidas do Estado. No último levantamento, em setembro de 2017, as desaparições já atingiam 32.277 pessoas, num processo macabro que recorda práticas das piores ditaduras -- sem qualquer identificação, homens e mulheres assassinados são enterrados em fossas clandestinas, exigindo um incansável e muitas vezes infrutífero trabalho de identificação. Num dos casos mais chocantes, ocorrido em 2014, e que se transformou num escândalo internacional por suas dimensões, 43 jovens de uma Escola Normal do interior do país foram sequestrados, assassinados e incinerados por um bando de policiais associados com uma quadrilha de traficantes. Mesmo glórias do turismo, como Las Cordas, um dos refúgios mais procurados do país em função de paisagens belíssimas a beira-mar, não escapam -- num levantamento recente, acabou num doloroso primeiro lugar entre as localidades mais violentas do planeta.

Com avanços e recuos em décadas em tempos recentes, nos anos Lula-Dilma, o Brasil acumulou uma história em outra direção. Não só resistiu ao ingresso na ALCA, a versão continental do NAFTA, como abriu um caminho diplomático rumo a uma postura de defesa da soberania nos anos Lula-Dilma, período que levou o colunista Andrés Oppenheimer, prestigiado analista do Miami Herald, a classificar o governo brasileiro como líder regional sem qualquer contestação. O ambiente se modificou após o golpe, adverte o professor Luiz Vázquez.

"Desde então, o Brasil segue o caminho que produziu a tragédia que vive meu país", diz ele, que em 5 de março participou de um debate realizado no Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, com apoio da Central Única de Trabalhadores, da deputada federal Benedita da Silva e do deputado Waldeck Carneiro, onde se debateu a Militarizacão da Segurança Pública e a violência contra os moradores das áreas mais pobres, comparando as diferentes realidades do Brasil e do México

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