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Pesquisador sobre 'fake news' se cala sobre patrocínios privados


Apresentado pela revista Veja como "o maior especialista do Brasil" sobre o tema "fake news", Pablo Ortellado, do Grupo de Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), se negou a responder a um questionário do 247, depois de sinalizar que poderia conceder uma entrevista e enviar uma nota explicativa sobre suas pesquisas. Ortellado ficou incomodado com questões relacionadas a eventuais patrocínios privados que envolvem iniciativas que, em tese, visam combater a disseminação de notícias falsas. Neste fim de semana, Veja, que foi condenada pela Justiça Eleitoral a conceder direito de resposta à presidente deposta Dilma Rousseff justamente por disseminar uma notícia falsa na disputa presidencial de 2014, lançou um manifesto contra "fake news", com patrocínio de duas empresas: Coca-Cola e Ambev (leia mais aqui).
Além do manifesto, Veja promoverá um seminário com a participação de Ortellado, que foi irônico ao ser questionado sobre se sua fala seria remunerada pela Editora Abril ou seus patrocinadores. "Honorários? hahahahaha serão 100 mil dólares na conta da minha offshore nas Bahamas", disse ele, por mensagem de whatsapp. Segundo o correspondente Brian Mier, pesquisas semelhantes às de Ortellado, sem rigor científico, já foram patrocinadas por fundações e grupos de direita nos Estados Unidos justamente com a finalidade de constranger plataformas tecnológicas – como Google e Facebook – a reduzir o alcance de veículos independentes. "É isso que podem estar querendo repetir no Brasil", diz ele. O deputado Paulo Pimenta (PT-RS), no entanto, faz um alerta. "Não permitiremos a volta da censura e estamos dispostos a promover audiências públicas no Congresso para apurar quem produz notícias falsas no Brasil e quem financia tentativas de conter a liberdade de expressão", afirma.
Confira, abaixo, as questões que Ortellado se negou a responder:
1) De que projetos sobre "fake news" e credibilidade na mídia você e/ou o Gpopai participam?
2) Estes projetos contam com algum tipo de patrocínio privado de fundações ou entidades ligadas a empresários como George Soros e Jorge Paulo Lemann ou algum outro?
3) Estes patrocínios, a ser ver, comprometem o caráter científico das pesquisas, uma vez que fundações e empresários possuem interesses políticos e econômicos no Brasil?
4) O Gpopai recebe algum tipo de patrocínio privado para realizar suas pesquisas?
5) Qual é o objetivo dos trabalhos sobre credibilidade da mídia dos quais você participa? Você pretende contribuir para conferir algum selo de credibilidade a veículos de comunicação e fazer com que tais informações sejam utilizadas por plataformas tecnológicas como Google e Facebook para determinar o alcance de determinados veículos?
6) Você é colunista da Folha de S. Paulo, que, em seu novo manual de redação, veta críticas internas? Isso cria um conflito de interesses ou algum desconforto para eventuais críticas que você tenha em relação à Folha no tocante ao tema das "fake news"?
7) Qual foi seu critério para dividir os veículos de comunicação em três grupos: (1) grande imprensa, (2) engajados de direita e (3) engajados de esquerda? Qual é a base científica para essa qualificação?
8) Nesta semana, Veja publica um manual contra "fake news" patrocinado pela Ambev e pela Coca-Cola. Considerando que Veja publicou notórias "fake news" recentes, como (1) plano de fuga de Lula e (2) dólares de Khadafi, na sequência dos dólares de Cuba, você avalia que esses manifestos têm credibilidade ou se tratam de uma iniciativa para classificar arbitrariamente o que tem ou não credibilidade?
9) Você considera correto colocar em campos antagônicos veículos progressistas, que têm expediente e profissionais conhecidos, e veículos de extrema direita, sem compromisso profissional, que mal divulgam quem são seus responsáveis?
10) Hoje, mais de 30 universidades pretendem oferecer cursos sobre o golpe de 2016. Você concorda que houve um golpe no Brasil?
11) O governo atual, o mais rejeitado da história do Brasil, já divulgou a intenção de criar grupos de trabalho de combate a "fake news", com a participação do Gabinete de Segurança Institucional. Você avalia que este trabalho pode se transformar em alguma caçada ideológica a veículos não alinhados com o atual regime? Ou seja, há o risco de que pesquisas sobre "fake news" venham a ser utilizadas como instrumento de censura por um governo de legitimidade contestada pela população brasileira?

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