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Como PMDB, PSDB, Mídia e o Mercado deram o Golpe no Brasil: Veja o Passo a passo


Não restam muitas dúvidas sobre o caráter golpista de Temer e sua turma e, a cada dia, fica mais evidente a ganância inescrupulosa deles. Mas não devemos nos enganar pensando que se trata de uma atitude apenas oportunista, ou seja, que ele está aproveitando a oportunidade que o destino lhe trouxe. Longe disso. Temer e Cunha ajudaram articular o Golpe para assumirem os maiores cargos do país, há mais tempo do que nossa relapsa memória nos alerta. E trata-se de uma articulação entre os três poderes, a grande mídia – televisiva e escrita – e até a autoria do pedido de impeachment.

Explico-me.

Em 29 de outubro de 2015, o MDB, liderado por Temer, lançou um programa próprio de metas governamentais chamado “Uma ponte para o futuro”. Em uma leitura atenta percebe-se que é uma evidente ruptura com o governo Dilma e um anúncio de sua “candidatura indireta” ao cargo da presidência. Havia apenas um obstáculo: Dilma era a presidenta, legitimamente eleita.

Eduardo Cunha “resolveu” o problema em apenas as trinta e quatro dias, 02/12/2015, quando deu início à derrubada de Dilma, acolhendo e deferindo um pedido de impeachment - que foi encomendado e pago pelo PSDB - de autoria de Helio Bicudo, Reale Júnior e Janaina Paschoal (veja aqui). Esta última, inicialmente tratada como acessório decorativo do trio, porém, se demonstrou peça-chave no processo.

Se nos atentarmos em como se deu a construção do pedido de impeachment aceito por Cunha, veremos que o primeiro pedido foi protocolado em 01 de setembro de 2015 e em quarenta e cinco dias, 15/10/2015, protocolaram um segundo pedido de impeachment (confira). Em seu pronunciamento sobre o acolhimento do segundo pedido e consequente abertura do processo, Cunha se enrolou na explicação, e, ao que tudo indica, o pedido do trio teve tratamento diferenciado e privilegiado, no que se refere ao tramites da Casa (relembre).

Se observasse os prazos defendidos por ele mesmo, Cunha deveria ter indeferido o primeiro pedido do trio no final de outubro. No entanto, no final de outubro, como já dito, os holofotes deveriam estar no plano de governo de Temer, “Uma Ponte para o futuro”. Além do mais, a oposição e a grande mídia criaram uma enorme expectativa popular no pedido elaborado pelo trio, não poderiam, então, “queimar essa bala”. Indeferir um pedido deles seria uma derrota simbólica, mesmo que apresentassem um novo em seguida, como fizeram.

A manobra, do “rei das manobras”, portanto, foi deixar o primeiro pedido guardado na sua gaveta por mais de noventa dias, aguardando pacientemente o novo pedido que ele, enfim, aceitaria. O qual, conhecendo Cunha como já conhecemos, deve ter recebido assessoria dos seus advogados. Do mesmo modo como aconteceu na elaboração do relatório da comissão de impeachment, votado há poucos dias (veja aqui).

O plano “Uma ponte para o futuro” elaborado pelo Temer foi intensamente divulgado pela grande mídia. O jornal nacional, por exemplo, apresentou uma reportagem de cinco minutos sobre ele. Na narração, a reportagem afirmou que

“o documento é uma ruptura do pmdb com o atual modelo econômico do governo. ele traz uma mensagem clara: o pmdb tem um caminho próprio e daqui pra frente vai segui-lo. mesmo que entre em choque com as propostas do governo.”

Esta mesma reportagem afirmou que o MDB não apresentou o plano previamente à presidenta Dilma. Precisa mais para explicitar o caráter golpista desse plano? Como é possível, em um cenário democrático, o vice-presidente elaborar um plano de metas governamentais e não apresentar e dialogar com a presidenta antes de divulga-lo publicamente?

Em 31 de outubro, o jornal O Globo publicou editorial elogiando o plano de Temer. A revista Veja estampou Temer em sua capa, na edição de 14 de novembro, com a manchete “O plano Temer – Como o vice-presidente e seu partido se preparam para assumir caso Dilma caia”.

É importante ressaltar que, nessa altura, sequer havia processo de impeachment aberto, Cunha deferiu o processo dezoito dias depois.

Nesse meio tempo, não podemos ignorar que um processo de cassação do mandato de Cunha foi protocolado pelo PSOL – em 13 de outubro – e aceito pela comissão de ética da Câmara em 3 de novembro. Exatamente no interim do lançamento do plano “Uma ponte para o futuro”. O então presidente da Câmara, uniu o útil ao agradável quando abriu o processo de impeachment de Dilma. Retaliou o PT por ter votado favoravelmente ao seu processo de cassação, como havia anunciado que faria (leia mais aqui).



Uma quinzena antes desta abertura, o então PMDB realizou o Congresso da Fundação Ulysses Guimarães, onde o plano “Uma ponte para o futuro” foi apresentado e discutido por membros do partido. A Rede Globo deu destaque em sua programação com reportagens que salientaram a recepção que Temer recebeu por meio de gritos de “impeachment já” e “Brasil para frente, Temer presidente!”

Cunha, apesar de vaiado, fez um duro discurso defendendo que o PMDB se distanciasse, visando uma posterior saída inevitável do governo. Podemos concluir que o presidente da Câmara, com a imagem já desgastada com denúncias de corrupção, assumiu o “trabalho sujo” com vistas a preservar a imagem de Temer. Estava óbvio o desembarque do PMDB do governo, mas um vice-presidente não poderia liderar tal processo sem ser chamado de golpista, principalmente, quando nem processo de impeachment havia ainda.



No dia 30 de novembro, dois dias antes de Cunha abrir o processo de impeachment, Temer declarou a revista Exame que caberia ao presidente da Câmara aceitar de impeachment.

“Isso é uma decisão dele. vamos esperar para ver”

Afirmou Temer, ao ser questionado se ele acreditava que Cunha aceitaria um dos pedidos de impeachment que ainda estão sendo analisados na Câmara dos Deputados. O vice-presidente, que estava no cargo de presidente em exercício enquanto Dilma estava em Paris, manteve-se afastado da articulação política do governo. Temer disse, no entanto, que conversou com o presidente da Câmara, mas que Cunha não teria tratado de impeachment.

Evidentemente, Temer sinalizou para Cunha e para as forças aliadas o que deveria acontecer nos próximos dias.

Pedido de impeachment aceito, cinco dias depois, Temer se vê sem explicação para sua carta à presidenta ter vazado à imprensa. A repercussão não foi a esperada, pois a carta revelou um vice-presidente ressentido por questões pequenas, sem apresentar qualquer preocupação com as questões fundamentais do país. Bem distante do Temer que escreveu “Uma ponte para o futuro”.

Mas se engana quem pensa que foi uma atitude mal calculada dele. Como vimos, ele estava há meses em marcha para derrubar Dilma, mas não poderia, simplesmente, escancarar suas garras. Esse serviço coube ao Cunha. Temer, portanto, optou fazer o sonso e vazar sua carta melindrosa. Com isso, revelou que estava rompendo com Dilma, mas manteve a “pele de cordeiro”, de vice decorativo e magoado.

No mesmo dia em que a carta “vazou”, Temer se reuniu, a portas fechadas, com empresários da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio) para apresentar seu plano de governo “Uma ponte para o futuro”. Percebia-se, já naquela época, qual seria a prioridade de um eventual governo dele. Os trabalhadores e os mais pobres, certamente, não serão.

Com a decisão do STF acerca do rito do impeachment, em 18 de dezembro, Cunha teve seus planos iniciais frustrados e se viu obrigado a adiar o processo para o início do ano legislativo.

Neste meio tempo, Temer, acompanhado de Moreira Franco e Eliseu Padilha, iniciou sua campanha nacional rumo à Presidência, no que chamou de “Caravana da unidade”. O então vice-presidente percorreu as cinco regiões do país com intuito de apresentar e discutir seu plano de governo (assista).

Enquanto isso, Cunha fazia o “trabalho sujo” na Câmara, viabilizando uma comissão favorável ao impeachment, assim como os votos necessários para aprovar o processo.

No final de fevereiro, o PMDB lançou mão de programas televisivos gratuitos em cadeia nacional para anunciar o plano Temer e fazer duras críticas ao governo Dilma. Reparem que há uma boa dose de hipocrisia esquizofrênica no partido que discursa como se não compusesse o governo e como se Temer não fosse vice-presidente.

A respeito disso, quando questionado, Temer dizia que quando estava discutindo o plano “Uma ponte para o futuro” era o Temer, presidente do PMDB, não era o Temer, vice-presidente da República. Notem que não há limites éticos e racionais para esse sujeito, em sua ganância pelo poder.

Não foi a primeira vez que o PMDB usou a cadeia nacional televisiva para desenvolver seu plano de tomada do governo. Em 29 de setembro, um mês antes da “Ponte para o futuro” ser lançado, o partido exibiu um programa de dez minutos, no qual, em clima de luto, criticou o governo e se colocou como a salvação do país, por meio do “redentor”, Michel Temer.

Por favor, assista para ter a dimensão da campanha golpista desse partido (veja aqui).

Exatamente seis meses depois dessa propaganda, em 29 de março, o PMDB se retira do governo federal oficialmente, em uma decisão, por aclamação, realizada em menos de cinco minutos, com ameaças de expulsão a quem desobedecesse, com exceção de Temer, obviamente, que estava agarrado a cadeira de vice, apenas esperando para dar o bote na cadeira de Dilma (confira).

Atentem-se aos detalhes das datas. Em exatos seis meses o MDB colocou seu plano golpista em seis etapas:



Tal cronograma lhe parece obra do acaso? Não está evidente que houve um plano metódico e inescrupuloso com o objetivo de tomar o poder de Dilma?

Agora, pensemos, se lançaram um vídeo partidário de dez minutos com quase todos os políticos da legenda em 29 de setembro, desde quando esse plano golpista não estava sendo conspirado por Temer, Cunha, mídia, empresário e demais aliados? Se houve, evidentemente, um cronograma de ações golpistas, desde quando ele tem sido traçado? Eu arriscaria dizer que desde que Dilma foi reeleita ou até antes.

Temer se licenciou da presidência do PMDB em 7 de abril, colocando um fim na sua hipocrisia esquizofrênica de uma hora ser presidente do PMDB e em outra ser o vice-presidente da República.

Quatro dias depois, 11 de abril, um áudio dele é vazado, no qual ele afirma que houve uma votação significativa a favor do impeachment e se coloca praticamente como o presidente, no lugar de Dilma. Detalhe, a votação em plenária ocorreria em seis dias. Mais uma vez ele teria sido descuidado? Mais um vazamento estabanado? Obviamente que não. Temer mandou o recado à Câmara e, ao mesmo tempo, a sociedade. E, de novo, disse que foi um engano, que se tratava de um ensaio privado para uma eventual necessidade.

Temer é um lobo. Uma fera sedenta por poder e dilacerou todos os princípios éticos e democráticos para ocupar a Presidência do Brasil. Cunha é um zumbi inescrupuloso, que cultivou uma horda de deputados, que lhe obedecem cegamente mesmo com ele preso.

Vale grifar que que os autores do pedido de impeachment apoiaram as ações inescrupulosas da dupla. Ou você viu algum deles criticar Temer ou Cunha com a mesma veemência que fizeram contra os petistas? Pelo contrário, no dia que Cunha acolheu o pedido de impeachment deles, deram declarações, no mínimo, contraditórias como:

“não foi coincidência. foi uma chantagem explícita, mas cunha escreveu certo por linhas tortas”, disse o ex-ministro da justiça. (Reale Júnior)

“eu já não esperava mais que isso acontecesse e estava pensando sobre quais providências poderíamos tomar para não passar em branco. mas o cunha, enfim, despachou. ele não fez mais do que a obrigação.” (Helio Bicudo)

“independentemente do que norteou a ação, temos que reconhecer que foi um ato muito importante para o país. como muito provavelmente ele [cunha] vai sair do cargo, eu vejo isso como um último ato de benevolência. estou triste pelo país estar nessa situação, mas feliz por pelo menos encontrado um caminho constitucional para sair disso.” (Janaina Paschoal)

Janaina Paschoal também defendeu Temer, posteriormente, isentando o vice-presidente das pedaladas que ele assinou e afirmou que “Temer é o vice, tem que assumir”.

Temer e sua gangue também foi apoiado pelo o grande empresariado que financiou econômica e simbolicamente, por meio das mobilizações pró-impeachment. Já parou para pensar que “algum pato” teve que pagar as despesas desses eventos? A FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), por exemplo, transmitiu, ao vivo, as manifestações favoráveis ao Impeachment, ocorridas na Av. Paulista. O Habib’s fez campanhas publicitárias e convocações para seus clientes participarem das manifestações em todo país.

Como já demonstrado, a grande mídia também nos enfiou goela abaixo o governo golpista, junto com um plano de governo que não merece o nome que tem, pois deveria chamar “uma ponte para o passado”. Um passado que nós, brasileiras, rejeitamos nas últimas quatro eleições. Um passado de miséria e fome. Um passado sem direitos trabalhistas. Um passado sem políticas para educação e para saúde. Um passado em que a corrupção não era investigada. Um passado de desemprego. Um passado de privatização das nossas riquezas naturais e industriais. Um passado onde se governavam apenas para os ricos e ignoravam os pobres, os negros, as mulheres, os LGBTS e todos os subalternos. Esse passado tem nome e sobrenome: PSDB.

Por mais que Alckmin tente, agora, se descolar do governo mais odiado da nossa história, ele e seu partido apoiaram e financiaram não somente o Impeachment, mas também todas as políticas e emendas constitucionais que destroem os direitos dos trabalhadores e mais pobres. Segunda levantamentorecente, o partido tucano apoiou mais o governo Temer do que o próprio partido dele, MDB.




Diante do exposto e do quadro atual, no qual toda articulação golpista descrita impõe a prisão ilegal de Lula para impedi-lo de concorrer à Eleição Presidencial, mesmo com as pesquisas apontando-o como preferência de quase 40% dos eleitores; não nos resta nada além do levante popular que exija que as instituições democráticas, principalmente o STF, retome seu papel constitucional e intervenha como devido, garantindo ao povo o seu direito republicano:

“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos”

Repudiamos Temer Repudiamos o plano “Uma ponte para o futuro”. Repudiamos PSDB. Não aceitamos que digam que os eleitores de Dilma também elegeram Temer, pois Dilma foi eleita com um plano de governo que em nada tem a ver com esse que vem destruindo o país. Não aceitamos golpe contra nossa inteligência, muito menos, contra nossa democracia.  Por 
Thaís S. Moya é socióloga, pós-doc em Ciências Sociais (Unicamp)


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