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E o golpe busca se perpetuar: Com Alckmin ou Bolsonaro, opção conservadora é impedir Lula


A dança de cadeiras em torno de Geraldo Alckmin, que pode implicar na retirada de um apoio que já se insinuava a Jair Bolsonaro, não modifica o ponto fundamental da estratégia da coalizão golpista para a eleição presidencial -- impedir a candidatura Lula de qualquer maneira e garantir sua permanência na prisão.

Dias depois do aplauso a Bolsonaro na CNI, acompanhado de vergonhosas manifestações de estímulo ao candidato que trouxe o fascismo para as eleições brasileiras com uma presença nunca vista em mais de um século de regime republicano, o anunciado acordo das legendas que formam o Centrão em torno de Alckmin representa o ensaio de um novo caminho para atingir um velho objetivo.

Diante do formidável apoio popular que Lula apresenta a cada pesquisa de opinião, o que se busca é impedir que ele -- ou o candidato que venha a indicar -- possa chegar ao segundo turno numa posição especialmente favorável: como o candidato capaz de unir o tradicional voto de esquerda com o eleitorado cujos valores democráticos impedem o voto em Bolsonaro, garantindo uma vitória com perfil de centro-esquerda na segunda rodada.

A ideia que empurra Alckmin pertence ao arsenal clássico de projetos conservadores em tempos recentes, em particular em países onde os partidos políticos tradicionais se desmancharam.

Foi patenteada na última eleição presidencial francesa, que deu a vitória a Emmanuel Macron num segundo turno contra o fascismo do Front National depois da eliminação do concorrente de esquerda Jean-Luc Mélenchon, a quem o PS recusou o apoio que lhe daria um lugar na segunda rodada.

Caso o apoio de novos aliados venha a ser confirmado, o que é sempre uma incerteza, Alckmin candidata-se a percorrer este caminho, contando com o auxílio indispensável da Lava Jato, resolvida a bloquear Lula de forma definitiva e dar uma chance para que a campanha do candidato tucano faça bom proveito das incertezas inevitáveis que surgirão caso o PT precise transitar para um novo candidato.

Ainda que uma ciranda de aliados possa lhe garantir uma mercadoria essencial na campanha, o tempo na TV, Alckmin terá de enfrentar uma barreira mais complicada do que parece. A experiência ensina que propaganda política é muito útil para todo candidato mas precisa conversar com a memória concreta do eleitor, cidadão que tem experiência suficiente para resistir a puros anúncios de sabonete.

Por mais que se possa recordar a importância da campanha na TV para garantir as vitórias eleitorais de Lula-Dilma, por exemplo, não custa sublinhar que elas se ancoravam em melhorias reais na vida da maioria da população. Alckmin entra na disputa como candidato do golpe que instalou Michel Temer no Planalto e promoveu reformas estruturais que a população repudia, gerando desemprego alto e salário baixo. A perspectiva é nenhuma perspectiva.

O desencanto com o longo reinado tucano em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, impediu, ao menos até agora, que ele se tornasse ao menos um candidato competitivo. Pelo contrário: Alckmin passou os últimos meses enfrentando humilhantes conspirações internas pela retirada de seu nome, movidas pela esperança de que surgisse um concorrente mais empolgante.

É sintomático, também, que o cordão de novos amigos de Alckmin tenha sido encorpado num momento de fraqueza de Bolsonaro. Surgiram dificuldades na campanha do capitão, para recrutar um vice de patente mais alta. A opção da vez era o general Augusto Heleno. Mas ele foi impedido -- até agora pelo menos -- de ingressar na campanha de Bolsonaro por decisão do comando de uma legenda que é dona de seu passe mas milita no feirão de ofertas de segundos oferecidos no horário eleitoral. Nesta situação, a opção mais recente para vice tornou-se a advogada Janaína Pascoal, desafinada solista do impeachment.

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