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Walter Moreira Salles denuncia retrocesso de 20 anos em dois com o golpe


Diretor consagrado e discreto, Walter Salles denuncia o retrocesso sofrido pelo país nos últimos dois anos. Vinte anos depois de seu sucesso “Central do Brasil”, filme que retratava um país em busca de identidade, ele vê um Brasil pior do que aquele momento e considera o governo Temer pior do que o governo Collor.
Herdeiro da tradicional família de banqueiros que apoiou o golpe, Walter Salles se mantém crítico e discretamente distante da condição de pertencer a elite financeira do país. Em entrevista à Folha, ele faz comentários importantes sobre política, mas também perpassa a inflexão de linguagens e de tecnologias. Salles entende que o sistema stream começa a prevalecer e que há a necessidade de se ter uma cota para a produção brasileira.
Leia trechos da entrevista:
"’Central’ foi lançado em 1998, mas a ideia do filme tomou corpo pouco antes de rodarmos "Terra Estrangeira," em 1995, ainda sob o impacto do desgoverno Collor. Além do caos econômico, o país vivia uma profunda crise de identidade, e a produção cinematográfica tinha caído a zero. O recomeço do cinema, naquele momento, foi marcado pelo desejo de reencontrar um reflexo brasileiro na tela, de dar voz a um não dito que estava represado. As cartas que pontuam o filme respondem a essa percepção. A busca de Josué pelo pai é também a busca por um país. Já a trajetória de Dora no filme é claramente um processo de ressenssibilização, após 25 anos de ditadura militar e dos anos Collor. Hoje, como o próprio governo propaga, andamos 20 anos em 2. Só que para trás. Considero o governo atual um desastre comparável ao de Collor. Representar esse momento na ficção é uma tarefa complexa, tal a rapidez da degradação. É um tempo mais propício aos registros urgentes, documentais.
(...)
A Cinemateca Brasileira foi considerada uma das cinco melhores do mundo, pouco antes da intervenção que a paralisou. Destruir um centro de excelência desse foi um gesto absurdo, que permanece mal explicado até hoje. Ele é revelador, por outro lado, de como aqueles que governam o país desprezam a nossa memória cultural.  Lei mais aqui.

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